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A vida crística de Lahiri Mahasaya

Publicado: Quinta, 21 Maio 2009

 

          “Assim nos convém cumprir toda a justiça1. Ao dirigir estas palavras a João Baptista, pedindo-lhe que o baptizasse, Jesus estava a reconhecer os direitos divinos do seu guru.

          Com base num respeitoso estudo da Bíblia do ponto de vista de um oriental2, e baseado na minha própria percepção intuitiva, estou convencido de que João Baptista foi, em vidas anteriores, o guru do Cristo. Numerosas passagens na Bíblia deixam implícito que João e Jesus, nas suas últimas encarnações, foram, respectivamente, Elijah e seu discípulo Elisha (esta é a grafia encontrada no Velho Testamento; os tradutores gregos pronunciavam esses nomes como “Elias” e “Eliseu”, e assim aparecem no Novo Testamento).

          A profecia da reencarnação de Elijah e Elisha aparece no final do Velho Testamento: “Eis que vos envio o profeta Elijah, antes que venha o dia grande e temível do Senhor.”3. Assim, João (Elijah), enviado “antes da vinda... do Senhor”, nasceu com pequena antecipação para servir como arauto de Cristo. Um anjo apareceu a Zacarias, o pai de João, para dar testemunho de que o filho esperado, João, não seria outro senão Elijah (Elias). Mas o anjo disse-lhe:

          “Não temas Zacarias, pois a tua prece foi ouvida e a tua mulher Isabel dará à luz um filho e por-lhe-ás o nome de João... e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá diante dele4, com o espírito e poder de Elias, para reconverter os corações dos pais aos filhos e dos rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo bem-disposto.” 5 .

          Por duas vezes inequivocamente Jesus identificou Elijah (Elias) como João:

          “Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram.”

          ... Então, os discípulos compreenderam que ele lhes falara de João Baptista6.

E noutra ocasião, Jesus repete:

          “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E se quereis dar-lhes crédito, é este o Elias que havia de vir7.

          Quando João negou que fosse Elias (Elijah)8, o que ele queria dizer era que sob as vestes humildes de João, não possuía a aparência sublime de Elijah, o grande guru. Na sua encarnação anterior, ele entregou o “manto” da sua glória e riqueza espiritual ao seu discípulo Elisha. “. “E Elisha respondeu:

          ‘Peço te que me sejam concedidas duas partes do teu espírito.’

          E ele disse (Elijah):

          ‘Pedes-me uma coisa difícil. Se me vires quando for arrebatado de ti, assim se fará...’ ... E (Elisha) pegou no manto que Elijah deixara cair 9.”.

          Trocaram se os papéis, pois Elijah João não mais era necessário como guru ostensivo de Elisha-Jesus, agora divinamente aperfeiçoado.

          Quando Cristo se transfigurou na montanha10, viu o seu guru Elias ao lado do Moisés. Pouco tempo antes de morrer na Cruz, Jesus exclamou:

          “‘Eli! Eli! Lama sabachthani?!’’”

Quer dizer:

          ‘Meu Deus! Meu Deus!  Por que me abandonaste?!’’

Alguns dos que permaneciam ali, ao ouvirem isto, disseram:

          ‘Este homem chama por Elias... Vejamos se Elias vem socorrê-lo.’”11
 
          O vínculo intemporal entre guru e discípulo, que existiu entre João e Jesus, também estava presente entre Babaji e Lahiri Mahasaya. Com terna solicitude, o imortal guru atravessou as turbulentas águas do esquecimento que se agitavam entre as duas últimas vidas do seu chela, guiando os passos sucessivos da criança e depois do homem Lahiri Mahasaya. Somente quando o discípulo completou trinta e três anos, Babaji julgou chegado o momento de restabelecer abertamente o laço jamais cortado.

          Após o breve encontro nas proximidades de Ranikhet, o abnegado guru fez com que o seu querido discípulo deixasse o pequeno grupo da montanha, não o conservando ao seu lado, mas libertando o para o desempenho de uma missão no mundo exterior:

          “Meu filho, virei sempre que necessitar de mim”.

Que amante mortal pode cumprir as infinitas implicações de semelhante promessa?!

          Sem que o mundo soubesse, um grande renascimento espiritual teve início em 1861, num remoto recanto de Benares. Assim como não se pode suprimir a fragrância das flores, igualmente Lahiri Mahasaya, vivendo em quietude como chefe de família ideal, não podia ocultar a sua própria glória. Aos poucos, como abelhas em busca de mel, devotos provenientes de todas os cantos da Índia, começaram a procurar o divino néctar do mestre liberto.

          O chefe da repartição, um inglês, foi um dos primeiros a perceber a estranha e transcendental mudança do seu funcionário, a quem costumava chamar afectuosamente de “Extático Babu”.
 
          Certa manhã, preocupado, Lahiri Mahsaya perguntou-lhe:

          “O senhor parece triste. O que se passa?”

          “A minha esposa, que se encontra em Inglaterra, está gravemente doente. Sinto-me a ser consumido pela angústia.”

          Deixando a sala para se sentar por algum tempo em local isolado, garantiu Lahiri Mahasaya:

          “Vou trazer-lhe notícias dela.”

Ao regressar tinha um sorriso consolador:

          “A sua esposa está melhor. Neste exacto momento, está a escrever-lhe.”

Citou-lhe, então, alguns trechos da missiva.

          “Extático Babu, já sei que não é um homem comum. No entanto, sou incapaz de acreditar que o senhor possa suprimir, com essa facilidade, os efeitos do tempo e do espaço!”

          A carta prometida chegou finalmente. Para seu grande espanto, o superintendente descobriu que continha, não só as boas notícias da cura da sua esposa, como também as mesmas frases pronunciadas pelo grande mestre, semanas antes.

          Alguns meses depois, a esposa chegou à Índia e foi visitar o escritório. Olhando Lahiri Mahasaya com reverência, aproximou-se dele respeitosamente, pois este encontrava-se tranquilamente sentado na sua escrivaninha, dizendo:

          “Senhor, foi a sua forma, nimbada num halo de luz gloriosa, que contemplei, há alguns meses, ao lado do meu leito de enferma em Londres. Naquele instante, senti-me completamente curada! Pouco depois, encontrava-me em condições de empreender a longa viagem através do oceano até à Índia.”

          Dia após dia, um ou dois devotos procuravam o sublime guru para receberem iniciação em Kriya Yoga. Além dos deveres espirituais e das suas responsabilidades profissionais e familiares, o grande mestre começou a interessar-se com entusiasmo pela educação. Organizou numerosos grupos de estudo e tomou parte activa no desenvolvimento de uma grande escola secundária em Bengalitola, um bairro de Benares. Nas reuniões semanais que vieram a ser conhecidas como “Assembleia do Gita”, o guru explicava as Escrituras a muitos ávidos buscadores da verdade.

          Com as suas múltiplas actividades, Lahiri Mahasaya procurou responder ao desafio comum:

          “Depois de cumprir os deveres profissionais e sociais, onde fica tempo para a meditação devocional?

A vida harmoniosamente equilibrada do grande guru-chefe-de-família tornou-se uma inspiração silenciosa para os corações cheios de incertezas de milhares de homens e mulheres. Ganhando apenas um modesto salário, o mestre era económico, simples e acessível a todos, e trilhava com naturalidade e alegria o caminho da vida no mundo.
               
          Embora abrigado no trono da Suprema Divindade, Lahiri Mahasaya mostrava reverência por todos os homens, independentemente dos seus méritos. Quando os seus devotos o saudavam, inclinava-se, por sua vez, diante deles. Com humildade de criança, o mestre frequentemente tocava os pés das outras pessoas, mas raras vezes permitia que lhe prestassem idêntica homenagem, apesar desta reverência para com um guru ser um antigo costume oriental.
           
          Um aspecto significativo da vida de Lahiri Mahasaya foi a sua dádiva de iniciar em Kriya Yoga os devotos de todas as religiões. Não apenas hindus, mas também muçulmanos e cristãos contavam se entre os seus mais proeminentes discípulos. Monistas e dualistas, adeptos de vários credos ou sem ele definido, eram imparcialmente recebidos e instruídos pelo guru universal. Um de seus chelas mais adiantados foi Abdul Gufoor Khan, muçulmano. Pertencente à casta mais elevada, a dos brâmanes, fez corajosos esforços para dissolver o rígido preconceito de castas na sua época. Caminhantes das mais diversas estradas da vida encontravam abrigo sob as asas omnipresentes do mestre. Como todos os outros profetas inspirados por Deus, Lahiri Mahasaya deu novas esperanças aos párias e oprimidos da sociedade. O grande guru dizia aos seus discípulos:
 
          “Recordem-se que não pertencem a ninguém e ninguém vos pertence. Reflictam que um dia terão, subitamente, de abandonar tudo neste mundo; por isso, estabeleçam o contacto com Deus agoraPreparem-se para a jornada astral da morte que se aproxima, viajando diariamente no balão da percepção divina. A ilusão faz com que pensem ser um aglomerado de carne e ossos, o que, na melhor das hipóteses, é um ninho de complicações 12. Meditem incessantemente e logo contemplar-se-ão como a Essência Infinita, livre de todo o tipo de sofrimento. Deixem de ser prisioneiros do corpo; usando a chave secreta do Kriya Yoga, aprendam a escapar para o Espírito.”

          O grande guru encorajava sempre os discípulos a seguirem a boa disciplina tradicional das suas próprias religiões. Dando ênfase à natureza abrangente da prática do Kriya como uma técnica de libertação, Lahiri Mahasaya dava então aos seus chelas liberdade para expressarem as suas vidas de acordo com o ambiente e a educação que haviam recebido. Recomendava o mestre:

          “Um muçulmano deve realizar seu ritual namaj13 quatro vezes por dia. Quatro vezes por dia, deve um hindu sentar-se em meditação. Um cristão deve ajoelhar-se quatro vezes por dia, orando a Deus e  depois ler a Bíblia.”

Com sábio discernimento, o guru guiava os seus seguidores nas sendas iogues do Bhakti Yoga (devoção), Karma Yoga (acção), Jnana Yoga (sabedoria) ou Raja Yoga (real ou completa), segundo as tendências naturais de cada pessoa. Lento em dar a sua permissão aos devotos desejosos de ingressar na senda formal do monasticismo, o mestre aconselhava-os sempre primeiro a reflectirem bem nas austeridades da vida monástica.
                                     
          O grande guru ensinava os seus discípulos a evitarem discussões teóricas sobre as Escrituras; aconselhava:

          “Sábio é quem se dedica a realizar, e não apenas a ler, as antigas revelações. Resolva todos os seus problemas através da meditação 14. Troque as especulações improfícuas pela comunhão real com Deus. Limpe a sua mente do entulho teológico e dogmático, deixe que entrem as águas frescas, curativas, da percepção directa. Sintonize se com a activa Orientação interior. A Voz Divina tem resposta para todos os dilemas da vida. Embora a engenhosidade humana para se meter em dificuldades pareça não ter fim, o Socorro Infinito não é menos capacitado.”

          A omnipresença do mestre ficou demonstrada certo dia, perante um grupo de discípulos que ouvia a sua explanação sobre o Bhagavad Gita. Ao explicar o significado de Kutastha Chaitanya ou Consciência Crística que vibra em toda a criação, Lahiri Mahasaya exclamou subitamente, ofegante:

          “Estou a afogar-me nos corpos de muitas almas, perto da costa Japonesa!

          Na manhã seguinte, os chelas leram num jornal a notícia da morte de muitas pessoas cujo navio fora a pique, no dia anterior, próximo do Japão.

          Numerosos discípulos de Lahiri Mahasaya, que viviam longe, tinham consciência da sua envolvente presença. As suas palavras de consolo, aos chelas que não podiam permanecer perto dele, eram:

          “Estou sempre com os que praticam Kriya. Conduzi-los-ei para o Lar Cósmico, através da expansão das suas percepções espirituais.”

          Sri Bhupendra Nath Sanyal15, eminente discípulo do grande guru, contou que em 1892, na sua adolescência, não podendo ir a Benares, orou ao grande mestre pedindo instrução espiritual. Lahiri Mahasaya apareceu lhe num sonho e deu lhe a diksha (iniciação). Mais tarde, o adolescente foi à Benares e pediu a diksha ao guru; respondeu-lhe Lahiri Mahasaya:

          “Já o iniciei, durante um sonho!

          Se um discípulo negligenciava qualquer uma das suas obrigações mundanas, o mestre corrigia-o, repreendendo-o com gentileza. Certa vez, contou me Sri Yukteswar:

          “As palavras de Lahiri Mahasaya eram brandas e curativas, mesmo quando precisava de falar abertamente dos defeitos de um chela.”
 
          E acrescentando, pesarosamente:

          “Nenhum discípulo conseguiu jamais  escapar das suas farpas.” 

          Não pude conter o riso, mas garanti sinceramente a Sri Yukteswar que, cortantes ou não, cada uma das suas palavras eram música para os meus ouvidos.

          Lahiri Mahasaya cuidadosamente subdividiu o Kriya Yoga em quatro iniciações progressivas16. Concedia as três técnicas superiores somente depois que o discípulo manifestasse um progresso espiritual definido. Determinado dia, um certo chela, convencido de que não estava a ser devidamente avaliado, expressou o seu descontentamento, queixando-se ele:

          “Mestre já estou preparado, sem dúvida, para a segunda iniciação.”

Nesse preciso momento, a porta abriu se e entrou Brinda Bhagat, um discípulo humilde, carteiro em Benares. O grande guru sorriu-lhe afectuosamente e disse-lhe:

          “Brinda, sente-se aqui ao pé de mim. Diga-me, já se sente preparado para receber a segunda iniciação em Kriya?

O despretensioso carteiro, juntando as mãos num gesto de súplica, respondeu alarmado:

          “Gurudeva, por favor, chega de iniciações! Como posso assimilar os ensinamentos ainda mais elevados? Vim hoje pedir-lhe a bênção porque a primeira iniciação de Kriya deu-me tanta embriaguez divina que já não consigo entregar as cartas!

          “Brinda já nada no mar do Espírito.”

Ao ouvir estas palavras de Lahiri Mahasaya, o outro discípulo abaixou a cabeça e disse:

          “Mestre, vejo que tenho sido um mau operário e estou a atribuir os meus defeitos às minhas ferramentas de trabalho.”

          O modesto carteiro, inculto como era, desenvolveu mais tarde a sua intuição através do Kriya Yoga, a ponto de intelectuais, ocasionalmente, procurarem a sua interpretação de passagens complicadas das Escrituras. Desconhecendo igualmente tanto o pecado quanto a sintaxe, o pequeno Brinda conquistou renome entre os pandits eruditos.

          Além dos numerosos discípulos de Lahiri Mahasaya que viviam em  Benares, centenas de outros vinham de longínquas regiões da Índia. Ele próprio viajou até Bengala em diversas ocasiões, para visitar os sogros dos seus dois filhos. Assim, abençoada pela sua presença, Bengala multiplicou se em colmeias de pequenos grupos de Kriya. Até hoje, o fluxo da corrente invisível de meditação espiritual é mantido por muitos devotos silenciosos, especialmente nos distritos de Krishnanagar e Bishnupur.
 
          Entre os muitos santos que receberam Kriya de Lahiri Mahasaya, podem ser mencionados o ilustre Swami Vhaskarananda Saraswati, de Benares, e o elevado asceta de Deoghar, Balananda Brahmachari. Durante algum tempo, Lahiri Mahasaya foi professor particular do filho do marajá Iswari Narayan Sinha Bahadur, de Benares. Reconhecendo as elevadas conquistas espirituais do mestre, o marajá e o seu filho pediram-lhe a iniciação em Kriya, assim como o fizera o marajá Jotindra Mohan Thakur.
                     
          Vários discípulos de Lahiri Mahasaya, ocupando posições de influência no mundo, desejavam expandir o círculo de Kriya Yoga, por meio da publicidade. O guru negou lhes permissão. Um chela, médico régio do príncipe de Benares, tinha iniciado um esforço organizado para divulgar o nome do mestre como “Kashi Baba” (O Enaltecido de Benares)17. Novamente, o guru negou a permissão. Disse-lhe ele:

          “Deixe que a fragrância da flor do Kriya seja levada pelo vento, de modo natural. As suas sementes vão enraizar-se firmemente no solo dos corações espiritualmente férteis.”

          Embora o grande mestre não adoptasse o sistema de pregar através do canal moderno duma organização ou de material impresso, sabia que o poder da sua mensagem se espraiaria como uma enchente irresistível, inundando com a sua própria força as margens das mentes humanas. As vidas transformadas e purificadas dos devotos eram a incontestável garantia da imortal vitalidade do Kriya Yoga.

          Em 1886, vinte e cinco anos depois de sua iniciação em Ranikhet, Lahiri Mahasaya aposentou-se18. Tendo maior tempo disponível durante o dia, os discípulos  procuravam-no em número sempre crescente. O grande guru sentava-se agora em silêncio, durante a maior parte do tempo, em tranquila postura de lótus. Raramente deixava a sua pequena sala de recepção, nem para dar uma caminhada ou ir a outros aposentos da casa. Um silencioso fluxo de chelas chegava, quase ininterruptamente, para o darshan (gozar a Graça da presença do guru).
                 
          Para assombro de todos os observadores, o estado fisiológico habitual de Lahiri Mahasaya exibia as características supra humanas de ausência de respiração, ausência de sono, cessação de pulso e  batimentos cardíacos, olhos calmos, sem pestanejar durante horas e profunda aura de paz. Nenhum visitante partia sem experimentar elevação espiritual; todos sabiam que tinham recebido a bênção silenciosa de um verdadeiro homem de Deus.

          Naquela época, o mestre autorizou o seu discípulo Panchanon Bhattacharya, a abrir um centro de yoga em Calcutá, denominado “Arya Mission Institution”. Ali, além de propagar a mensagem do Kriya Yoga, o abençoado discípulo também preparava ervas medicinais iogues19, distribuídas gratuitamente, e  publicava as primeiras módicas edições do Bhagavad Gita, em Bengala. Passou-se a ler o Gita da Arya Mission Institution, em hindi e bengali, em centenas de lares.

          Seguindo um costume de eras antigas, o mestre dava, ao povo em geral, óleo de neem20 que servia para a cura de várias moléstias. Quando o guru pedia a algum discípulo para que destilasse o óleo, a tarefa cumpria se facilmente. Se qualquer outro o tentasse, deparava com estranhas dificuldades; descobria, depois de submeter o óleo aos processos de destilação necessários, que o líquido, quase por completo, se havia evaporado. Segundo todas as evidências, a bênção do mestre era um ingrediente indispensável.

          A caligrafía e a assinatura de Lahiri Mahasaya, em língua bengali, aparecem acimaY. O texto faz parte de uma carta enviada a um chela, na qual o grande mestre interpreta um verso em sânscrito:

          “Quem atingiu o estado de calma no qual as pálpebras não pestanejam, alcançou Sambhavi Mudra21. Assinado, Sri Shyama Charan Deva Sharman”.

          A Arya Mission Institution empenhou-se na publicação de muitos comentários do guru sobre as Sagradas Escrituras. À semelhança de Jesus e outros grandes profetas, Lahiri Mahasaya não escreveu livros, mas  as suas interpretações profundas foram registadas e organizadas por vários discípulos. Alguns desses copistas voluntários transcreveram mais correctamente do que outros as profundas percepções do guru, mas, de forma geral, todos os esforços foram bem sucedidos. Graças a esse entusiasmo, o mundo conta com comentários excepcionais de Lahiri Mahasaya sobre vinte e seis escrituras antigas. O meu querido amigo Sri Ananda Mohan Lahiri, falecido neto do mestre, escreveu um interessante opúsculo sobre o Kriya Yoga:

          “O texto do Bagavad Gita é uma parte do épico Mababarata, que possui diversos pontos controversos (vyas kutas). Se esses pontos controversos não forem questionados estaremos perante meras histórias míticas, que podem facilmente ser mal interpretadas. Se esses pontos controversos não forem esclarecidos, perderemos uma ciência que, após milhares de anos de experimentação, a Índia tem tentado preservar com uma paciência sobre humana.

          Os comentários de Lahiri Mahasaya trouxeram à luz, despida de alegorias, a própria ciência da religião que tão engenhosamente fora ocultada e nas imagens enigmáticas das Escrituras. Através do mestre, as fórmulas de adoração védica, deixaram de ser apenas um conjunto de palavras ininteligíveis, sem qualquer sentido, e mostram o seu significado científico:

          “Sabemos que o homem é habitualmente impotente perante uma emergência avassaladora e nefasta das paixões; no entanto, estas tornam-se inofensivas quando o homem deixa de condescender com elas ao alvorecer nele a consciência da beatitude superior e duradoura através do Kriya Yoga. Então o desistir, a renúncia, a negação da natureza inferior sincroniza-se com o insistir, a afirmação do superior, a experiência da Bem Aventurança. Sem essa evolução, as máximas morais que consistem em meras proibições são inúteis para nós.

          Por detrás de todas as manifestações fenoménicas, marulha o Infinito, o Oceano de Poder. A sede de actividade mundana mata em nós o senso de reverência espiritual. Deixamos de perceber a Grande Vida oculta por detrás de todos os nomes e formas porque a ciência moderna nos diz como utilizar os poderes da Natureza. A familiaridade com a Natureza fez nascer o desprezo pelos seus segredos últimos; a nossa relação com ela é de carácter prático. Nós importunamo-la, digamos assim, para descobrir de que modo podemos forçá la a servir os nossos propósitos; tiramos proveito das suas energias, cuja Fonte ainda permanece desconhecida. Em Ciência, a nossa relação com a Natureza é semelhante à que existe entre um homem arrogante e a sua criada; ou, em sentido filosófico, a Natureza é como um cativo no banco das testemunhas. Nós interrogamo-la repetidas vezes, provocamo-la, e minuciosamente pesamos o seu depoimento em balanças humanas incapazes de medir os seus valores ocultos.

          Por outro lado, quando o ser se acha em comunhão com uma energia mais sublime, a natureza obedece à vontade do homem automaticamente, sem nenhum esforço ou tensões. Incapaz de entender como isso acontece, o materialista considera esse domínio sobre a natureza algo´milagroso`.

          A vida de Lahiri Mahasaya estabeleceu um exemplo que modificou a errónea noção de que o yoga é uma ciência misteriosa. Apesar do carácter objectivo da ciência, todo o homem, graças ao Kriya Yoga, pode encontrar um caminho para compreender a sua correcta relação com a natureza e sentir reverência espiritual por todos os fenómenos23, sejam de ordem mística ou rotineira. O que considerávamos sobrenatural há mil anos atrás, hoje deixou de sê-lo e que o que hoje é misterioso, daqui a cem anos talvez se torne algo perfeitamente compreensível. É o Oceano da Energia Infinita que se encontra por detrás de todas as manifestações.
 
          A ciência do Kriya Yoga é eterna. É verdadeira como a matemática; como as simples regras de soma e subtracção, a lei de Kriya nunca será destruída. Queimem e reduzam a cinzas todos os livros de matemática: os homens de mente lógica redescobrirão sempre as suas verdades; destruam todos os livros sagrados sobre o yoga: as suas leis fundamentais ressurgirão sempre que aparecer um verdadeiro iogue, dotado de uma devoção pura e, consequentemente, de um conhecimento puro.”
      
Assim como Babaji, entre os maiores avatares, é um Mahavatar e como Sri Yukteswar pode, com justiça, ser chamado um Jnanavatar ou Encarnação da Sabedoria, igualmente Lahiri Mahasaya é um Yogavatar ou Encarnação do Yoga24. Segundo os padrões quantitativos e qualitativos da bondade, o grande mestre elevou o nível espiritual da sociedade.
 
          Pelo seu poder de alçar os seus discípulos íntimos à estatura de Cristo e pela sua ampla disseminação da verdade entre as massas, Lahiri Mahasaya figura entre os redentores da humanidade. Como profeta singular deu ênfase à prática do Kriya Yoga, um método definido que, pela primeira vez, abriu a todos os homens as portas da libertação iogue. Sem mencionar os milagres da sua própria vida, o Yogavatar realizou o maior de todos os prodígios ao transformar as antigas complexidades do Yoga em algo simples e efectivo, ao alcance do grande público.

A respeito dos  milagres, Lahiri Mahasaya dizia frequentemente:

          “A operação das leis subtis, desconhecidas do povo em geral, não deve ser publicamente discutida ou divulgada, sem o devido discernimento.”

          Se nestas páginas, pode parecer que descurei as suas palavras de cautela, foi porque ele próprio me encorajou internamente a agir dessa forma. Além do mais, ao registar as vidas de Babaji, Lahiri Mahasaya e Sri Yukteswar, considerei conveniente omitir muitas histórias miraculosas verdadeiras que dificilmente podiam ser incluídas sem que eu escrevesse também um volume explicativo da mais impenetrável filosofia.

          Como iogue chefe de família, Lahiri Mahasaya trouxe uma mensagem prática adequada às necessidades do mundo actual. As excelentes condições económicas e religiosas da antiga Índia não mais existem. O grande mestre, por isso, não promoveu o velho ideal do iogue como asceta errante carregando uma escudela de mendigo. Ele preferiu salientar as vantagens que teria o iogue em ganhar o seu próprio sustento, não dependendo de uma sociedade competitiva para a sua sobrevivência, e praticar o yoga no recesso de seu lar. A este conselho, Lahiri Mahasaya acrescentou a força motivadora de seu próprio exemplo. Ele foi o modelo do iogue moderno, “aerodinâmico”. O seu modo de vida, conforme planeado por Babaji, tinha o objectivo de ser um guia aos aspirantes de yoga de todo do mundo. Nova esperança para novos homens! Proclamou o Yogavatar:

          “A União Divina é possível através do esforço pessoal, reiterado, e independente de crenças teológicas ou da vontade arbitrária de um Ditador Cósmico.”

          Usando a chave do Kriya Yoga, pessoas incapazes de acreditar na divindade de qualquer homem reconhecerão, por fim, a plenitude da sua própria divindade.

 

 

1 Mateus, 3:15.

2 Muitas passagens bíblicas revelam que a lei da reencarnação era compreendida e aceite. Os ciclos de reencarnação constituem uma explicação mais razoável para os diferentes estados de evolução, nos quais a humanidade se encontra, do que a teoria ocidental comum; esta pretende que algo (consciência do ego) veio do nada, existiu em vários graus de vitalidade durante trinta ou noventa anos e depois retornou ao vazio original. A inconcebível natureza de tal vazio é problema para deleitar o coração de um escolástico medieval.

3 Malaquias, 4:5.

4 “Diante dele”, isto é, “diante do Senhor”.

5 Lucas, 1: 13 17.

6 Mateus, 17:12 13.

7 Mateus, 11:13 14.

8 João, 1:21.

9 II Reis, 2:9 14.

10 Mateus, 17:3.

11 Mateus, 27:46 49.

12  Quantas espécies de morte há nos nossos corpos! Nada existe aí que não seja morte.”  Martinho Lutero, em “Conversas à Mesa”.

13 A principal oração dos muçulmanos, geralmente repetida quatro ou cinco vezes diariamente.

14Busque a verdade na meditação, não em livros bolorentos. Olhe o céu, não a lagoa, para encontrar a lua.”  Provérbio persa.

15 Sri Sanyal entrou em mahasamadhi em 1962. (Nota da SRF).

16 Como o Kriya Yoga possui muitas divisões, Lahiri Mahasaya seleccionou, acertadamente, quatro passos que considerou essenciais e que possuem o mais elevado valor para a prática.

17 Outros títulos concedidos a Lahiri Mahasaya pelos seus discípulos foram Yogibar (o maior dos iogues), Yogiraj (o rei dos iogues) e Munibar (o maior dos santos), aos quais acrescentei  Yogavatar (encarnação do yoga).

18 Depois de ter trabalhado durante trinta e cinco anos num departamento do governo.           

19 Os compêndios médicos hindus chamam se Ayurveda. Os médicos aurvédicos usavam delicados instrumentos cirúrgicos, faziam cirurgia plástica, sabiam como neutralizar os efeitos dos gases venenosos, realizavam cesarianas e operações cerebrais e eram peritos na dinamização dos medicamentos. Grande parte da matéria medica de Hipócrates (sec. IV a.c.), foi tomada emprestada de fontes hindus.

20 Da árvore da Índia oriental amargoseira ou cinamomo. Os seus valores medicinais estão a ser reconhecidos no Ocidente, onde a sua casca amarga é usada como tónico e o óleo extraído das sementes e frutos é usado no tratamento da lepra e de outras doenças.

21 Sambhavi Mudra significa fixar o olhar no ponto entre as sobrancelhas. Quando o iogue atinge determinado estado de paz mental, as suas pálpebras não piscam; ele está absorto no mundo interior.

Um mudra (“símbolo”) geralmente designa um gesto ritual feito com os dedos e as mãos. Muitos mudras induzem à calma, pois afectam determinados nervos. Os antigos tratados hindus classificam minuciosamente os nadis (72.000 condutos nervosos no corpo) e a sua relação com a mente. Portanto, os mudras, usados no ritual e no yoga têm fundamento científico. Uma elaborada linguagem de mudras também é encontrada na iconografia e nas danças rituais indianas.

Y Página 360 do livro “Autobiografia de um Iogue”, editora Lotus do Saber.     

22 “Vários sinetes encontrados recentemente em escavações arqueológicas do vale do rio Indo, datados do terceiro milénio a.C. mostram figuras sentadas em posições meditativas, agora usadas no sistema do yoga, confirmando a inferência de que já naquela época se conheciam alguns dos rudimentos de yoga. Podemos concluir, razoavelmente, que a introspecção sistemática com auxílio de métodos comprovados tem sido praticada na Índia desde há cinco mil anos”, − Professor Norman Brown no Bulletin of the American Council of Learned Sciences”, Maio de 1939, Washington, D.C.
Entretanto, as Escrituras hindus atestam que a ciência do Yoga é conhecida na Índia há incontáveis milénios.

23  “O homem que não se surpreende, que habitualmente não consegue surpreender-se (nem reverenciar), mesmo que fosse presidente de inúmeras sociedades científicas e tivesse na cabeça… a epítome  de todos os laboratórios e observatórios, com todos os seus resultados, não passaria de um par de óculos atrás do qual não existem olhos para ver.”   CarlyIe, em “Sartor Resartus”.

24 Sri Yukteswar referia se ao seu chela Paramahansa Yogananda como a uma encarnação do amor divino. Depois que Yoganandaji abandonou o corpo físico, o seu discípulo e sucessor espiritual Rajarsii Janakananda (James J. Lynn) conferiu lhe o título profundamente apropriado de Prenavatar ou Encarnação do Amor (nota do editor).

 

 

Bibliografia:

 
  • Autobiografia de um Iogue”, 2001, de Paramahansa Yogananda. Editora Lótus do Saber. Tradução: Português (Brasil).
  • Autobiografia de um Iogue”, 2008, de Paramahansa Yogananda. Editora Dinalivro. Tradução: Português (Portugal).

 

 

 

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