“O Kriya Yoga é um instrumento que pode acelerar a evolução humana”,
explicava Sri Yukteswar aos seus alunos.
– “Os antigos iogues descobriram que o segredo da Consciência Cósmica está intimamente ligado com o domínio da respiração. Esta é a contribuição única e imortal da Índia ao tesouro do conhecimento mundial. A força vital, que normalmente se dedica a manter a pulsação cardíaca, deve ser libertada para atividades superiores por meio de um método que acalme e detenha as demandas incessantes da respiração.”
O praticante de Kriya Yoga dirige mentalmente a sua energia vital para cima e para baixo, em torno dos seis centros espinhais (plexos medular, cervical, dorsal, lombar, sacral e coccígeo), correspondentes aos doze signos astrais do Zodíaco, o Homem Cósmico simbólico.
Meio minuto de revolução (30 segundos) da energia ao redor da sensível medula espinhal, efetua progressos sutil na evolução do homem. Esse meio minuto de Kriya equivale a um ano de desenvolvimento espiritual natural.
O sistema astral de um ser humano, com seis constelações internas (doze, por polaridade) a girar em torno do Sol do olho espiritual omnisciente, está interrelacionado com o Sol físico e os doze signos zodiacais.
Todos os homens são desta forma afetados por um universo interno e outro externo. Os antigos rishis descobriram que o ambiente terreno e celeste do homem, numa série de ciclos de doze anos, impulsiona-o adiante na sua senda natural. As escrituras asseveram que o homem requer um milhão de anos de evolução normal, sem doenças, para aperfeiçoar o seu cérebro e expressar a consciência cósmica.
Mil Kriyas, praticados em oito horas e meia, dão ao praticante de Kriya yogi, num dia, o equivalente a mil anos de evolução natural: 365.000 anos de evolução num ano.
Em três anos, um Kriya Yogi, pode assim realizar por auto-esforço inteligente, o mesmo resultado que a natureza faz acontecer em um milhão de anos.
Este atalho do Kriya Yoga, só pode ser trilhado por iogues profundamente desenvolvidos. E com a orientação de um guru, estes iogues preparam cuidadosamente o seu corpo e cérebro para suportar a força gerada pela prática intensiva.
O iniciante de Kriya yoga pratica esta técnica iogue apenas de quatorze a vinte e quatro vezes, duas vezes por dia. Alguns iogues obtêm a emancipação em seis, doze, vinte e quatro, ou quarenta e oito anos. Um iogue que morre antes de atingir a completa realização, leva consigo o bom karma do seu esforço passado da prática de Kriya yoga; e na sua vida seguinte é naturalmente impelido ao Objetivo Infinito.
O corpo do homem comum é como uma lâmpada de cinquenta watts, que não pode suportar o bilhão de watts de energia, gerados por uma prática excessiva de Kriya Yoga.
Através do aumento regular e gradual dos exercícios simples e perfeitamente seguros de Kriya Yoga, o corpo do homem transforma-se astralmente, dia a dia e, por fim, está preparado para expressar o infinito potencial da Energia Cósmica que constitui a primeira expressão materialmente ativa do Espírito.
O Kriya Yoga nada tem em comum com exercícios respiratórios anticientíficos, ensinados por alguns fanáticos confusos. Tentativas de forçar a retenção da respiração nos pulmões são artificiais e decididamente desagradáveis. A prática do Kriya Yoga, pelo contrário, é acompanhada desde o início por sentimentos de paz, e sensações suavizantes, de efeito regenerador na coluna.
Esta técnica antiga de yoga converte a respiração em substância mental. O adiantamento espiritual permite o devoto conhecer a respiração como um conceito mental, um ato da mente: uma respiração-sonho.
Muitas ilustrações poderiam ser dadas da relação matemática entre a frequência respiratória do homem e as variações dos seus estados de consciência.
Uma pessoa cuja atenção esteja totalmente concentrada, como ao acompanhar um intrincado argumento intelectual ou ao tentar alguma proeza física delicada ou difícil, automaticamente respira muito devagar. A fixidez da atenção depende da respiração lenta; respiração rápida ou irregular, que acompanha inevitavelmente estados emocionais prejudiciais: medo, luxúria ou raiva. O macaco inquieto respira em média 32 vezes por minuto, em contraste com a média humana de 18 vezes. O elefante, a tartaruga, a serpente e outros animais conhecidos pela sua longevidade têm uma frequência respiratória mais lenta que a do homem. A tartaruga gigante, por exemplo, pode atingir a idade de 300 anos e respira somente 4 vezes por minuto.
Os efeitos rejuvenescedores do sono devem-se à perda temporária, no ser humano, da consciência do corpo e da respiração. Dormindo, o ser humano torna-se um iogue: todas as noites executa, inconscientemente o rito iogue de se libertar da identificação corporal, e de fundir a sua força vital às correntes curativas na área central do cérebro e nos seis subdínamos dos centros espinhais. Sem conhecimento, o homem, ao dormir, é recarregado pela energia cósmica que sustenta toda a vida.
Fazendo uso da sua vontade, o iogue, executa um processo simples e natural, conscientemente – não com a inconsciência e a lentidão de quem dorme.
O Kriya Yogi usa a técnica para saturar e alimentar todas as suas células físicas com luz imperecível e, desse modo, conservá-las espiritualmente magnetizadas. Cientificamente, ele torna a respiração desnecessária, sem entrar (nas horas de prática) nos estados negativos de sono, inconsciência ou morte.
Nos homens sujeitos à lei natural ou maya, o fluxo de energia vital dirige-se ao mundo exterior; as correntes são desperdiçadas e usadas de modo abusivo nos sentidos. A prática do Kriya Yoga inverte o fluxo; a força vital é mentalmente guiada para o cosmos interior e reúne-se às energias sutis na coluna. Por meio de tal reforço da força vital, o corpo e os neurónios do iogue são renovados por um elixir espiritual.
Com alimentação apropriada, luz solar e pensamentos harmoniosos, homens que são apenas conduzidos pela natureza e por seu divino plano, alcançarão a Auto-realização num milhão de anos. São necessários doze anos de vida saudável normal para que se efetue o mais leve refinamento na estrutura cerebral; um milhão de anos solares são precisos para purificar a morada cerebral o suficiente para que manifeste a Consciência Cósmica. Um Kriya iogue, entretanto, pelo exercício da ciência espiritual, livra-se da necessidade de um longo período de cuidadosa observância das leis naturais.
Desamarrando o cordão de respiração que liga a alma ao corpo, o Kriya Yoga serve para prolongar a vida e expandir a consciência ao infinito. A técnica yogui vence o cabo-de-guerra entre a mente e os sentidos enredados à matéria, libertando o devoto para que herde de novo o seu reino eterno. Ele sabe, então, que o seu ser real não está limitado, nem pelo seu involucro físico nem pela respiração – símbolo da escravidão mortal do homem ao ar, às compulsões elementares da Natureza.
Mestre do seu corpo e da sua mente, o Kriya Yoga finalmente vence o “último inimigo”, a Morte.
Assim te alimentarás da Morte, que se alimenta dos homens; e morta a Morte, então não haverá mais morrer.
A introspeção, ou “sentar-se em silêncio”, é um processo não-científico de forçar a mente e os sentidos, amarrados pela força vital, a se separem. A mente contemplativa, na sua tentativa de retorno à divindade, é constantemente arrastada de volta aos sentidos pelas correntes de vida. O Kriya Yoga, controlando a mente diretamente através da força vital, é a avenida de aproximação mais fácil, mais eficaz e mais científica para o Infinito. Em contraste com o lento e incerto “carro de bois” que é a via teológica para Deus, o Kriya Yoga pode, com justiça, ser chamado de via “aerea”.
A ciência Iogue fundamenta-se na consideração empírica de todos os tipos de técnicas de concentração e exercícios de meditação. O Yoga capacita o devoto a ligar e desligar, conforme a sua vontade, a corrente vital que vai para os cinco telefones sensoriais: visão, audição, olfato, paladar e tato. Alcançando este poder de desligar os sentidos, é simples para o iogue unir a mente com reinos divinos ou com o mundo da matéria, à vontade. Não é mais puxado de volta pela força vital, contra a vontade, à esfera mundana de sensações desordenadas e de pensamentos inquietos.
A vida de um praticante de Kriya Yoga avançado é influenciada não pelos efeitos de ações passadas, mas apenas pelas diretrizes da alma. O devoto, desse modo, evita os monitores evolutivos lentos das ações egoístas, boas e más, da vida comum – enfadonhos e lentos como caracóis para os corações de águia.
O método superior de viver pela alma liberta o iogue; emergindo da sua prisão do ego, ele respira o ar profundo da omnipresença. A escravidão do viver natural, por contraste, assume um ritmo humilhante. Ajustando a sua vida apenas à ordem evolutiva, o homem não pode fazer com que a Natureza, lhe conceda uma aceleração extraordinária. Embora vivendo sem cometer erros contra as leis que governam o corpo e a mente, ele ainda precisa de um milhão de anos do disfarce das encarnações para alcançar a emancipação final.
Os métodos telescópicos de um iogue, dissociando-o de identificações físicas e mentais em benefício da individualidade da alma, são recomendáveis, portanto, àqueles que se revoltam ante a perspetiva de um milhão de anos. Esse horizonte numérico é ampliado para o homem comum, que não vive em harmonia com a Natureza e, muito menos, com a sua própria alma; pelo contrário, ele persegue, complexidades antinaturais e ofende a suave sensatez da Natureza com o corpo e os pensamentos. Para ele, duas vezes um milhão de anos mal bastam para a libertação.
O homem vulgar raramente, ou nunca percebe que o seu corpo é um reino, governado do trono do crânio, pelo Imperador “Alma”, com regentes subsidiários nos seis centros espinhais ou esferas de consciência. Esta teocracia estende-se a uma multidão de súbditos obedientes – vinte e sete trilhões de células (dotadas de inteligência segura, apesar de aparentemente automática, com a qual executam todos os deveres corporais, de crescimento, transformação e decomposição) e cinquenta milhões de pensamentos e emoções essenciais, alem das variações de fases alternativas na consciência do homem, numa vida média de sessenta anos.
Qualquer aparente insurreição no corpo ou na mente contra o Imperador “Alma”, manifestada como doença ou irracionalidade, não se deve à deslealdade dos humildes súbditos, mas brota do mau uso, passado ou presente que o homem fez da sua individualidade ou livre arbítrio – a ele conferido junto com uma alma, e nunca revogável.
Identificando-se com um ego superficial, o homem acredita que é ele quem pensa, quer, sente, digere alimentos e conserva-se vivo; jamais admitindo pela reflexão (apenas um pouco seria suficiente) que na sua vida ordinária, ele não passa de um boneco das ações passadas (karma) e da Natureza ou meio ambiente. As reações intelectuais, sentimentos, estados de espírito, humores, hábitos de cada homem são meros efeitos de causas passadas, desta ou de uma vida anterior. Entretanto, acima destas influências, paira a sua sublime alma régia. Rejeitando verdades e liberdades transitórias, o Kriya Yogi vai além de toda esta ilusão e penetra em seu Ser irrestrito. As escrituras do mundo declaram que o homem não é um corpo corruptível, mas uma alma vivente; no Kriya Yoga ele encontra o método que comprova esta afirmação.
“O ritual exterior não pode destruir a ignorância, pois não são mutuamente contraditórios”, escreveu Shankara nos seus famosos Century of Verses (cem versos). “Só o conhecimento que foi experimentado destrói a ignorância (…) O conhecimento só pode surgir por meio da investigação. – “Quem sou eu? Como nasceu este universo? Quem é o criou? Qual é a sua causa material?’ – Este é o tipo de investigação que me refiro.” O intelecto não tem resposta para estas perguntas; assim os rishis (sábios) desenvolveram o yoga como uma técnica de investigação e pesquisa espiritual.
O verdadeiro Iogue, retirando os pensamentos, a vontade e os sentimentos da identificação falsa com os desejos corporais, unindo a mente com as forças inconscientes nos santuários da coluna vertebral, vive deste modo no mundo como Deus planeou; ele não é impelido por impulsos do passado nem por motivações recentes da insensatez humana. Tendo recebido a realização do seu Desejo Supremo, ele está seguro no abrigo final do Espírito inexaurívelmente bem-aventurado.
Referindo-se à eficácia metódica e segura do yoga, o Senhor Krishna louva o iogue tecnológico com as seguintes palavras: “O iogue é maior que os ascetas disciplinadores do corpo, ainda maior que os adeptos do caminho da sabedoria (Jnana Yoga), ou do caminho de ação (Karma Yoga); sê tu, ó discípulo Arjuna, um iogue!”
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Kriya Yoga é o verdadeiro “rito do fogo”, muitas vezes exaltado no Bhagavad Gita. O iogue joga os seus anseios humanos numa fogueira monoteísta consagrada ao Deus incomparável. Esta é a verdadeira cerimonia iogue do fogo, na qual todos os desejos passados e presentes são o combustível consumido pelo amor divino. A Chama Última recebe o sacrifício de toda a loucura humana, e o homem fica livre de escória. Os seus ossos metafóricos despojados de toda carne sensual, o seu esqueleto karmico, branqueado pelos sóis anti-sépticos da sabedoria, inofensivo diante do homem e do Criador, ele está finalmente limpo.
Capítulo 26 do livro “Autobiografia de um iogue“, escrito pelo mestre Paramahansa Yogananda