Todas as noites realizamos um ato que pode ser misterioso mas que é fantástico, e nem sequer nos apercebemos disso. Deitamo-nos, fechamos os olhos e depois desaparecemos. Não é o corpo, nem a respiração, mas nós — aquele que pensa, que se preocupa, que planeia e que recorda — simplesmente desaparece. Mas não fazemos a mínima ideia para onde vamos.
Esta noite, quando te renderes ao sono, irás dissolver-te em algo profundo, e que está para lá da compreensão quotidiana. Mas fomos condicionados a tratar esta “morte” e “ressurreição” diárias como algo banal. Quando é na verdade uma viagem extraordinária e que nos acontece todas as noites. Contudo, podemos passar uma vida inteira sem nos apercebermos do que está realmente acontecer quando vamos dormir.
Todas as noites, se quisermos entrar dentro de uma perspetiva mais dramática, praticamos algo que equivale a uma espécie de “suicídio voluntário”. Pois aquilo que chamamos de “eu” — este orador interior que pensa, que sente, que experiencia e que existe — entra voluntariamente num esquecimento absoluto de si mesmo.
Estamos tão habituados a este desaparecimento noturno que deixamos escapar a questão do quão extraordinário ele é. Os pensamentos param, o sentido de tempo evapora-se, a nossa identidade — todas as opiniões, memórias e preocupações a que nos agarramos com tanta força — dissolvem-se por completo. E no entanto, de alguma forma profunda, há algo por detrás que continua sempre presente.
É algo que não é o “eu”, mas também não é o “não‑eu”. É como se todas as noites fossemos para uma espécie de esvaziamento do eu, um “vazio” — o puro ser que permanece sempre existente enquanto o ego desaparece.
A sociedade ensina-nos a tratarmos este “milagre” diário como se fosse apenas uma espécie de manutenção, um carregamento de bateria, o reiniciar do computador ou de uma máquina. Assim, pensando desta forma, o resultado será sempre algo banalizado.
Observemos agora com mais atenção. O que é que desaparece exatamente quando adormecemos?
O nosso nome deixa de ter importância. O nosso trabalho, as nossas relações, as nossas listas intermináveis de tarefas — tudo desaparece. Tudo aquilo que pensamos que nos define, simplesmente deixa de estar presente.
Aquela pessoa que está preocupada com a reunião da manhã seguinte, que se lembra da conversa de ontem, que tem opiniões políticas ou tem certas preferências sobre café — toda essa construção pára completamente.
Trata-se do esquecimento mais absoluto. E não o vivemos com a perceção ou sentimento de perda ou de morte. Pois não há tragédia no sono profundo, não há luto pelo “eu” que vai desaparecer. Porquê?
Porque esse “eu” que poderia lamentar-se desapareceu.
Todas as noites provamos que existimos perfeitamente bem sem sermos quem pensamos que somos.
Podemos dizer que existimos numa forma mais pura e mais essencial, quando toda carga psicológica é removida. Mas isto levanta uma pergunta:
Se conseguimos existir e viver sem a nossa identidade todas as noites, o que é que isso nos diz desse “eu-identitário” que defendemos com tanto zelo durante o dia?
Durante o estado de vigília, existe sempre a sensação de que há um “eu” a observar, não é? Um observador por detrás dos olhos, uma testemunha constante dos pensamentos, uma presença. Chamemos-lhe Consciência. Este observador parece tão persistente, constante e fiável que nunca questionamos a sua permanência. De tal modo que, chegado ao sono, ele mantém-se e testemunha a sua qualidade na vigília seguinte.
Quando o sono chega, o “eu” acalma-se e vai desaparecendo, mas a Consciência permanece. Pois quando acordamos de um sono profundo existe a noção de termos existido durante o sono. Ou seja, existe sempre a perceção que esse sono tenha corrido bem ou mal quando se acorda. E isso só pode acontecer quando há uma perceção de termos existido como consciência durante esse período de sono.
Nos sonhos há uma perceção de identidade; mas que “eu” é esse que cria “filmes” extraordinários?! Quem é esse “eu” que escreve o guião dos sonhos?! E que “eu” cria as personagens desse filme?!
Nos sonhos este “eu” visita lugares desconhecidos, fala com pessoas desconhecidas, vive histórias com uma riqueza e detalhes espantosos. Este “eu” cria mundos, com leis, relações e narrativas tão convincentes como uma produção de Hollywood. E existe a perceção plena que são reais até acordar.
Se este “eu” consegue criar realidades tão convincentes quando o “eu-vigília” não está presente, como podemos ter a certeza que aquilo que chamamos de estado de vigília não seja apenas outro tipo de “eu” numa outra espécie de estado de sonho?
Quando falamos do estado de sono profundo, onde não há pensamentos, nem imagens, nem tempo, nem espaço, nem perceção de “eu”. Contudo, como já foi dito anteriormente, há a perceção de existência.
No sono profundo, existimos sem um “eu” a experimentar ou a observar. Há uma Consciência sem objetos. É um “eu sou” sem atributos, sem qualidades, sem identidade. É pura consciência de existência.
Visitamos este estado de sono profundo, de uma espécie de “paz” todas as noites. Aquilo que buscamos na meditação, na filosofia e na religião, na verdade, vivemos naturalmente sempre que adormecemos.
A Consciência não precisa do “eu” para existir. Este “eu” que cria a identidade desaparece no sono profundo, mas a Consciência permanece inalterada.
Não há um “eu” separado que tem consciência. Há um “eu” a sonhar que é alguém separado. Tal como a onda não está separada do oceano — é na verdade o oceano a expressar-se como onda.
Todas as noites regressamos a Casa.
Quando acordares de manhã observa: primeiro há apenas Consciência pura. Depois, lentamente, o “eu” aparece. O nome, a história de vida, as preocupações. Mas quem cria isto tudo?
A mesma Inteligência que faz o coração bater, que faz crescer o cabelo, que transforma uma semente numa flor. Nada disso acontece apenas à noite. Está a acontecer agora. A única diferença é que, quando acordados, existe a ilusão de que alguém está no controlo, pois o ego assume o comando.
Se interrogarmos e observamos a nós mesmos: quem escolheu o pensamento que acabou de surgir? Quem decide quando nos apaixonamos? Quem controla o sistema imunitário?
O estado de vigília é apenas outro sonho — tão convincente como o sonhador que se esquece que está a sonhar. Aquilo que realmente É, É o que permanece quando todos os sonhos terminam.
Assim quando te deitares esta noite, reconhece que irás regressar à tua verdadeira natureza. E quando acordares, permanece por um momento nessa Presença, antes de voltares a ser alguém ou algo.
Consciência não é algo que possuímos ou a possuir.
A realização espiritual mais profunda é o que vivemos todas as noites e esquecemos todas as manhãs. Mas agora que sabes disso — e sabendo-o — como poderás voltar a encarar estes sonhos de ser alguém tão a sério?
um estudante